




Dois meses de Londres. Simples assim.
Mesmo com todas as informações de como a capital é cosmopolita, você só sente na pele que está em um resumo mal feito do mundo quando convive uma rotina maluca que esta cidade exaspera.
Isso não é ruim, nem se torna uma barreira.
A decepção só é grande porque sou fã do idioma britânico. Sempre achei o american english accent uma pastelantice mal sonorizada e fanha. E aqui em Londres é difícil escutar alguém falando um proper english. O que mais se tem é indianos que sobrevivem por aqui de muitas maneiras, algumas mágicas e louváveis, outras apenas existindo sem uma razão aparente. Eles rasgam o sotaque sem se importar com o glamour que é articular o idioma.
Os ingleses continuam pedindo desculpas e licença como há dois meses atrás, e isso é bom. Respeitam muito o próximo e, por incrível que pareça, são amistosos. Quando percebem estrangeiros falam de uma forma mais pronunciada e lenta. Para ser entendido mesmo.
A pontualidade britânica é fogo. Continua ferrenha e assídua.
Os policiais são extensivos e estão em todos os lugares.
Os brasileiros estão por toda a parte. Muitos andam por aqui de forma ilegal, e isso é ruim. Fazem uns guetos estranhos e são mal vistos. O jeito brazuca de se comportar não se adéqua ao dia a dia britânico. A brasileirada é farofa por natureza, junta meia dúzia e já viu: grito, nome feio e risadas estridentes por todo o lugar.
Conheci muito brasileiro por aqui. Jovens, perdidos e sem presença futura. Alguns com problemas de idiomas, outros procurando empregos underground. A grande maioria ainda veio naquela idéia de juntar dinheiro para remessas Western Union. Conversam em português, compram farofa, feijoada em lata e arroz. Escutam pagode e sertanejo dia e noite. Falam mal das inglesas que não sabem se vestir. Sentem saudades ferrenhas do Brasil e desejam por tudo voltar um dia.
Aliás, tem muito mercado regional luso-brasileiro por aqui que vende tudo que se possa imaginar de origem tupiniquim: farofa, goiabada, picanha resfriada, chá mate, guaraná em lata e 1,5l, temperos e guarnições diversas. Parece a mercearia da Maricóta.
Equipei minha casa com umas 400 libras. Muita coisa de qualidade excelente, algumas marcas famosas e design inteligente por todo o lado. E, entenda por mobiliar, algo como encontrar um apartamento apenas com um sofá, uma mesa e uma cama.
Os preços por aqui continuam atrativos.
Fiz meu insurance number para começar a trabalhar. Eles prometem 8 semanas para entregar. Recebi em 3 dias. Sempre assim, inclusive com o Royal Mail, que todo mundo fala mal. Eles têm um sistema first e second class de entregas que ninguém entende direito, mas que é muito barato.
Sistema de saúde nacional é conhecido como o maior, mais complexo e funcional do mundo. Não testei, mas me cadastrei. Espero não usar nunca.
A cultura cotidiana aqui é foragida de desgraças midiáticas. Não sei se o povo se encheu de saber noticias mundiais ou se, no final das contas, é tudo rubish do mais catinguento e ninguém está nem aí para elas mesmo.
A previsão do tempo é fenomenal: você tem um hora-a-hora com mapa de nuvens, vento, direção e tipo de chuva/fog. Sabe quando levar guarda-chuva ou uma blusa para o ventão das 19h.
A vida aqui é muito, mas muito mais complexa do que eu imaginava. Para você ter uma idéia da proporção que isso atinge, contabilize pelos tipos de sais que existem para cozinhar (e que vendem em qualquer mercado grande): course, table, deep mediteran, iodized, kosher irregular, celtic, dairy, rock, pickling, sea regular e seasoned. Multiplique isso por quase tudo que você possa consumir ou usar por aqui e terá uma pequena amostra da diversidade e costumização que morar aqui significa.
Eu não tenho mais idéia do que será minha vida daqui para frente. Sinto que essa cidade cinzenta está me forçando a plantar raízes.
E isso só pode ser, ou muito bom, ou péssimo.
O tempo, viadinho, vai ter que me falar.
Este é o primeiro dos milhares de novos posts sobre uma pequena mudança vivencial na minha vida. O texto é grande (precisa ser, é um desabafo) e se você tem preguiça de ler mais de três linhas, aperta Crtl+W que aparecerá um resumo de tudo na sua tela.
Resolvemos mudar de país. Como você já deve ter percebido pela imagem acima, nosso ponto-de-mira é o Reino Unido. Especificamente a Inglaterra.
Pensamos em algumas localidades interessantes como o Canadá francês, Alemanha, Islândia, Antuérpia, Seichelles, Austrália e até a Nova Zelândia. Mas por questões de praticidade, cultura, idioma, e até financeira, a Inglaterra do Sul foi a melhor pedida.
A vida aqui no Brasil estava muito boa. Incrivelmente calma, com empregos bons, salários fartos, amizades incríveis e muita coisa para fazer. Mas essa estabilidade e segurança toda estava me deixando louco. Minha vida sempre foi permeada por decisões estranhas e reviravoltas dantescas. Nunca consegui estabilizar a vida em mais de 5 anos.
Brasília estava batendo o recorde.
E olha que eu ainda não fui com a cara da cidade. Essa cidade é pra enlouquecer.
Já reclamei muito, pestanejei e tentei acertar um belo soco na ponta da bowie brasiliense, mas não deu certo. A questão que permeava minha vida estava justamente nisso: “Viraria eu um sacripantas do funcionalismo público?”
Claro que não, né. Minha vida é regrada em princípios que fazem uma fodelança homérica na minha vida. As prerrogativas que regem essa história toda são visceralizadas por idéias que nunca dão certo e por alguns pitacos de sorte e falta de juízo.
Olha como estava tudo arrumado: em dezembro do ano que se passou o plano era simples: comprar um Troller, um apartamento de 4 quartos simples e inventar um herdeirinho. Isso tudo supostamente significava enfiar uma raiz pivotante com tudo no solo brasiliense. E se redimir à desgraceira.
Janeiro deste e o plano estava todo mudado. Nada de apartamento, jipão diesel 4×4 nem criança. Aliás, nem nada mais aqui, apenas passar a régua e pedir a conta.
A decisão foi rápida. Claro que essa mudança para a gringa foi oficializada, com passaportagens, permesos, carimbos, chancelas e selinhos sineteados. Não sou retardado de ir ilegal, e nem tenho idade para tal idiotice.
Para foder tudo de vez, no dia da compra do one way ticket to ride descobri que passei em segundo lugar em um concurso público desses que te faz viver para sempre e aposentar da maneira mais porca e segura do mundo, sem pensar muito e o melhor: ter um gabinetezinho marrom mofento para sempre. A questão foi tão explicita que eu até achei graça: em uma mão, passagens para um país fedorento, frio e foggento; na outra, a mais bela e tranquila forma de envelhecer engravatadamente.
Claro que escolhi morar fora. Onde já se viu eu manear o sucesso assim, descaradamente?
Na verdade desde dezembro, quando meu carro foi para o reino-dos-céus-dos-carros-4×4 e todo aquele dinheiro que ele não valia pingou na minha conta, um fardo bom e grande de preocupações se esvaziou dos meus mensalismos. Claro que andar a pé (ônibus e metrô) em Brasília é uma merda, impossível e proibido. Mas a economia de algo em torno de R$1500 por mês é incrível. Economizando assim, ganhei outra vantagem: ando pra caralho a pé e frequento o reduto mais lazarento do mundo: o terminal rodoviário de Brasília (e Conic, por tabela). Meu convívio com gente feia, despenteada e fedorenta conseguiu atingir patamares impressionantes. E isso não é uma reclamação preconceituosa, veja bem: estou inserido na massa protéica de cidadãos passivos e inócuos. Um extremismo bipolar severo, uma vez que, de vez em quando, frequento casas de diplomatas, ministros, desembargadores e até deputados.
Colocando um pouco de lenha na fogueira, o Brasil está perdido, meu povo. Não existe esperança de melhorar em menos de 50, talvez 100 anos. E a culpa não é dos políticos, nem poder público: e da gente. Brasileiro é a raça mais filadaputa que existe e não tem como rebater isso. É um povo delicioso e feliz, festeiro e gostoso, igual não tem e isso eu defendo com unhas e dentes. Mas não somos sérios, honestos nem educados. Educados! Essa era a palavra.
Cultura e educação.
Eu tive algumas propostas realmente sérias e grandiosas de enriquecer aqui. Mas eram corruptivas e fantasmagóricas. Golpes pestilentos que invalidariam-se com uma moral idiota que ainda carrego sem culpa.
Mas vamos ao que interessa: 09 de agosto de 2011 é o meu take off. O dia em que o Brasil — teoricamente — ficará no meu passado histórico e varonil e uma nova escolha de vida se abrirá diante dos meus olhos.
Claro que parece uma loucura senil e mal pensada, não tem como não ver assim. Mas, seguindo aquelas premissas hippies de “foda-se tudo” estamos tentando curtir a vida adoidado, nunca é tarde para arriscar o futuro intangível.
E o mundo vai acabar em 2012, então não tem por que se preocupar.
Teremos muita conversa até lá, sobre o assunto. Pode ficar sossegado.
Agora em maio farei uma farewell expedition pelas terras patagônicas, envolvendo Argentina, Chile e Uruguai. Tudo de carro, com algumas neves, vinhos de exquisita cosecha, cadenas nos coches. E bem despacito, porque vamos de carro.
*Gallivanting é uma gíria. Tem tanto (e nenhum) sentido que ninguém, ao certo, sabe como usar. Fooling around, indeed.